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Criando múltiplos

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Desafio. Este é um dos saltos na maternidade. Nos lançamos no desafio de gerar, de parir e de criar. Mas, e quando eles vêm em dobro (ou mais)? O desafio de criar múltiplos é, sem dúvida, um dos maiores. Simplesmente porque, óbvio, tudo se multiplica: o cansaço, o trabalho, a preocupação e etc. Em compensação, e de acordo com as mães que falaram para a coluna, carinho e amor também vêm em doses repetidas! Vamos conhecer o dia-a-dia de Fabiane Beatriz e Shirlayne que geraram gêmeos. Elas contam com sensibilidade e bom humor sobre a loucura que é amamentar duas ou mais crianças que têm fome ao mesmo tempo; escolher qual fralda trocar primeiro, quando sujam na mesma hora; e acalmar aquele choro amplificado. Falam sobre adaptação, sono perdido, ciúmes, dificuldades e alegrias. A história toma dimensões ainda maiores para as mães de trigêmeos, quadrigêmeos, quíntuplos... A psicóloga Maria Luiza Lara Fernandes, da Clínica Pró-Nascer, especialista em terapia familiar, completa a conversa dando dicas para os pais que têm filhos múltiplos. Ela nos acalma projetando o futuro quando diz: “Tudo dá certo. Eles crescem!”.

Fabiane Beatriz Lima é mãe de Beatriz e Ana, que estão com um ano e meio. Ela só descobriu a gravidez quando estava com nove semanas e só na 13ª soube que estava gerando de duas meninas. “Quase caí para trás”, diverte-se.

Altos e baixos na gravidez

“Minha gravidez foi ótima até o sexto mês. Depois fiquei muito inchada, com retenção de líquido. Comecei a fazer massagem linfática, que aliviou as dores nas pernas. Com 29 semanas descobri que estava com diabete gestacional. Levei um susto, mas fui encaminhada ao endocrinologista e fiz uma super dieta. Minha médica marcou a cesariana com 38 semanas por causa da diabete, mas com 36 semanas senti uma dorzinha na hora do xixi e aí descobri que estava também com infecção urinária. Comecei a tomar o remédio, mas no dia seguinte, minha bolsa estourou. Foi uma sensação incrível!”

Juntas para casa

“A Bia estava sentada, por isso teve que ser cesariana mesmo. As meninas até que nasceram com um peso legal, apesar de serem gemelares e prematuras: Beatriz, a primeira, nasceu com 2.180 e 45 cm, e a segunda, Ana, com 2.050 e 46 cm. Elas foram direto para o quarto comigo, mas à noite tiveram que ser levadas ao berçário porque a glicose que estava muito baixa. Ficamos um dia a mais no hospital por isso. Mas fomos embora todas juntas”.

Depressão pós-parto

“Tive depressão pós-parto porque não conseguia ficar feliz com a chegada delas. Hoje sei disso, mas na época não entendi e tudo foi muito difícil. Elas choravam quase que 24 horas até os quatro meses. O pediatra falava que era normal, mas eu não conseguia acreditar nisso. Eu dormia 3 horas por dia, em média, e o resto era só com elas. As meninas dormiam pouco e choravam demais. Aos quatro meses resolvi trocar de pediatra porque a Bia teve infecção urinária e ele não diagnosticou. Consegui uma médica ótima, que até hoje é a mesma. Ela diagnosticou a infecção urinária na Bia, anemia nas duas e o pior: refluxo grau três. Por isso elas choravam tanto e tinham azia. Com o tratamento, as meninas começaram a dormir mais. Depois disso, passei a ver a maternidade com outros olhos”.

Ciúme?

“Quando uma está longe, a outra chama. Quando uma dorme a outra tenta acordá-la de todo jeito. Ciúme só quando chego do trabalho. Tenho que ficar pelo menos dez minutos com as duas no colo, senão é uma birra danada...”

Iguais e diferentes

“São duas pessoinhas completamente diferentes apesar de serem uni vitelinas... Bia é agitada e comunicativa. Adora rir e dançar e é muito birrenta... Ana é mais desconfiada; fica muito no colo; adoece mais; é menor e mais na dela... Não dá muita bola para as pessoas. Elas têm cabelos e corpinhos diferentes. As outras pessoas acham que elas são idênticas, por isso coloquei brincos diferentes: um com pedrinha verde e o outro, branca”.

Atenção

“A maior dificuldade é a atenção. Imaginem: dois bebês na mesma idade... Elas precisam das mesmas coisas e ao mesmo tempo, ou seja: colo, comida, brincadeiras, etc... Para quem eu dou mais atenção? A impressão que tenho é que nunca estou fazendo as coisas 100%”.

Lindas e saudáveis

“As meninas estão com um ano e meio e, para mim, esta é a melhor fase. Elas ficam abraçadas o tempo todo! Começam a interagir e aprendem mais a cada hora. Agradeço a Deus por minhas filhas, que são lindas e saudáveis, e por ter me tornado mãe”.



Shirlayne, mãe do casal Isabelly e Wesley, de um ano e nove meses, conta que ficar grávida de gêmeos era um sonho antigo. “Minhas amigas me dizem que eu fui a grávida mais feliz que elas já viram!”

34 semanas

“Durante a gravidez passei por algumas situações difíceis. Senti dores e cólicas e isso me deixou muito insegura. No dia do parto trabalhei; fui ao supermercado e à noite a bolsa onde estava a Isabelly rompeu. Fui para o hospital e quase dois minutos depois do nascimento da Isabelly nasceu o Wesley. Eu estava com 34 semanas de gestação”.

Sufoco e alegria

“Deus do céu, houve dias em que pensei que ia enlouquecer! Mas também foram dias de muitas descobertas. Cada dia, uma experiência, um sufoco diferente. Noites e noites acordada amamentando... Mas nada se comparava a alegria que eu sentia. Tudo valia a pena, cada minuto e segundo. Quando eles dormiam um pouquinho, lá estava eu parada na beira do berço agradecendo a Deus e admirando tamanha beleza... Amamentava os dois juntos, pois isso me dava mais tempo de descanso depois. Colocava um para cada lado (aprendi isso com a minha avó que teve gêmeos três vezes!!)”.

Independentes

“Eles são muito independentes. Dormem sozinhos; tomam as mamadeiras sozinhos; e às vezes até tentam colocar o sapatinho no pé sem a minha ajuda. Mas têm personalidades completamente diferentes. Isabelly é doce, dengosa, cheia de manha e muito sorridente. Wesley é nervoso, pouco apegado e sério”.

Dica

“Dividir a atenção de modo que nenhum se sinta prejudicado. Procuro sempre revezar. Quando começo com Isabelly na próxima vez começo com o Wesley”.

Sentindo a dor do outro

“Certo dia, Wesley estava na casa da minha mãe, que mora no prédio ao lado do meu. Eu e Isabelly ficamos em casa. Isabelly caiu da cama e começou a chorar muito. Minha mãe me ligou para avisar que estava levando Wesley para casa porque, de repente, ele começou a chorar sem parar. Minha mãe o trouxe para casa e ele só parou de chorar quando já estava com a irmã, que também só parou de chorar quando o irmão chegou. Agradeço sempre a Deus pelo mais valioso presente que já ganhei, meus filhos.”

 

Conversa com a terapeuta:

Dra. Maria Luiza Lara Fernandes é psicóloga da Clínica Pró Nascer, no Rio de Janeiro, e especialista em terapia familiar.

 

VM: Filhos múltiplos são parecidos, mas é preciso respeitar a individualidade de cada um. Quando a mãe deve começar o processo de diferenciação?

Perceber as diferenças entre os filhos desde o útero - identificando o mais agitado ou o mais quieto, por exemplo - é reconhecer que cada um tem individualidade e personalidade distinta. Respeitar essa diferença é um grande trunfo para a educação e criação dos bebês gêmeos.

VM: Vestir os filhos igualmente ou adotar carrinhos duplos, por exemplo, pode reprimir a individualidade?
Temos que levar em consideração a praticidade do carrinho duplo. É muito mais fácil uma só pessoa empurrar um carrinho duplo, do que ficar na dependência de mais uma pessoa para conduzir os carrinhos. O desejo da mãe em querer colocar roupas iguais pode ser "aceitável" até o momento dos bebês se tornarem mais independentes, ou seja, quando começarem a andar. A diferenciação de roupas e objetos é importante porque cada filho é um indivíduo, separadamente do outro. Quando vestem roupas iguais, eles se tornam 'os gêmeos' no grupo. O contrário, até certo ponto, ajuda-os a se sobressaírem como indivíduos. Além do mais, vestir-se é uma das primeiras atividades que permitem às crianças fazerem as suas escolhas pessoais. Isso é um importante passo para a independência do relacionamento com o outro. Sem falar que roupas diferentes contribuem para reduzir as confusões que as pessoas fazem de troca de identidade.

VM: Dizem que gêmeos são tão ligados que podem sentir o que o outro sente.
Esta possibilidade é descartada cientificamente. Mas empiricamente são constatados fatos que sugerem que muitos gêmeos são tão ligados entre si que se tornam capazes de completar as frases e de prever as intenções do outro. Tal fato não é verificado apenas entre gêmeos, vemos isso acontecer com certa freqüência entre integrantes de uma mesma família, e até amigos muito próximos. Desmistificar esta idéia entre os gêmeos é a atitude mais aconselhável.

VM: Um conselho aos pais de múltiplos.
Cada bebê vai ter uma resposta diferenciada do outro. Paciência, calma e bom humor são as palavras chaves porque, afinal de contas, podem ter certeza, eles crescem!

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