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Crianças são pipas

Educar, cuidar, ensinar, aprender; qual é o papel da escola, dos educadores e dos pais?

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Quando o assunto é desenvolvimento infantil não fica clara qual a zona de governabilidade e atuação de cada um dos envolvidos. Cada qual delega ao outro ações e responsabilidades que seriam suas e ficamos em uma grande e nebulosa indecisão.

Quanto menor a criança, a preocupação maior dos pais é com os cuidados e bem-estar da criança: se está sendo bem assistida, alimentada e bem acolhida, afetivamente falando. Na medida em que a criança cresce e passa a se comunicar verbalmente, os pais começam a voltar suas preocupações para o desenvolvimento cognitivo, motor e proposta pedagógica da escola. Nesta etapa, se questionam se fizeram a opção pela melhor escola, se todas as potencialidades de seu filho estão sendo estimuladas e desenvolvidas, se o filho está socializado no grupo, se é aceito por ele, entre outras preocupações.

Educadores antenados e comprometidos sabem que receita ideal é aquela que percebe o aluno holisticamente. Sem suas necessidades e cuidados básicos atendidos adequadamente é impossível esperar que o aluno consiga se concentrar e desenvolver uma aprendizagem significativa e de qualidade.
crianças precisão de orientação - Foto: jambulboy / pixabay.com
O professor, por sua vez, precisa compreender não só os pressupostos que permeiam o projeto pedagógico, missão e posicionamento da escola, como também a etapa de desenvolvimento na qual a criança se encontra.

Um professor da educação infantil, por exemplo, pode, sim, ter uma relação afetiva com as crianças. Não há como evitá-la e nem se deve, pois o aprendizado, principalmente nos primeiros anos só é significativo quando há um forte componente emocional. O que não se deve fazer é querer assumir o papel dos pais ou substituí-los, até porque isso acarretará em frustrações e sentimentos de perda futuros para ambos os lados. A criança e o professor devem ter bem claras as diferentes relações e papéis.

Os educadores são também orientadores dos pais. Eles não devem impor práticas, mas também não podem se omitir quando percebem que são necessárias intervenções educativas ou encaminhamentos para especialistas.

Muitos pais têm uma visão errada ao pensar que se são muito condescendentes e devem colocar seus filhos em uma escola rigorosa enquanto que outros, cujos filhos não tem permissão para nada em casa, colocam seus filhos em escolas em que possam ter autonomia. Esse raciocínio fará com que as crianças percam seus parâmetros, pois os valores de ambas instituições, escola e família são extremamente divergentes. É preciso ter coerência, sem exageros.

Nada em excesso é saudável. É preciso se encontrar o equilíbrio e nos alicerçarmos na velha máxima de que o que importa são as qualidades de nossas ações e relações e não a quantidade delas. Pais que se sentem culpados por não se dedicarem o quanto julgariam necessário aos filhos em função da vida corrida, acabam por serem extremamente condescendentes e permissivos, por receio de perderem o amor de seus filhos.

Essa discussão veio à tona por meio do livro da sino-americana Amy Chua: “Grito de Guerra da Mãe Tigre”. Seu relato causou polêmica ao defender uma educação rígida ao extremo e ilustrar em seu livro as formas que conduzia suas filhas. Todo o dia delas era ocupado com estudos, qualquer nota diferente de dez era um lixo, as repetições e treinos eram intensas até que se tornassem as melhores em tudo. Disciplina, para ela, era a única palavra de ordem.

De acordo com Amy, o modelo americano e ocidental em geral dá muito valor a autoestima e que dessa maneira os filhos jamais progredirão na vida. Ela defende ainda que a infância é uma etapa de treinamento e lapidação. A esses pais severos e rigorosos, como ela, apelidou de pais Tigre. Do lado oposto estariam os pais Panda, carinhosos que confortam e elogiam, reforçando cada pequena conquista de seus filhos, típicos do ocidente.

Qual é o pai ideal?

Pais extremamente exigentes podem desenvolver adultos com baixa autoestima e revoltados ao não terem suas conquistas reconhecidas. Por outro lado, elogios exagerados, presentes a toda hora, nenhuma exigência ou limite culminarão em adultos com baixa tolerância a frustrações, com expectativas irreais a seu respeito o que também não é o ideal.

É preciso, então, se encontrar um equilíbrio, respeitando as individualidades, incentivando as boas práticas e ações, mas ao mesmo tempo impondo limites e mostrando possibilidades de se empenhar mais em busca dos objetivos.

Enfim, pais e educadores, principalmente de crianças dos anos iniciais, precisam ter a clareza de seus papéis.

Os professores também precisam perceber a importância que seus atos e prática pedagógica terão na formação da personalidade de seus alunos.

Uma mistura de docilidade e firmeza, de limites e condescendência pautados em um ambiente lúdico que proporcione uma aprendizagem significativa farão dessas crianças adultos saudáveis emocionalmente para que lidem com os desafios neste mundo dinâmico em que estão inseridos.

O mundo em que vivemos é real e ele espera jovens dinâmicos, argumentadores, que se posicionem e solucionem seus problemas e desafios. Para isso, eles precisam ter um pouco de tigre e um pouco de panda, pois sem entendimento, resiliência, flexibilidade e perseverança não se consegue conviver.

As crianças são como pipas. Os pais e professores dão a linha e as deixam voar, buscar seus caminhos, fundamentados em todas as experiências de vida e valores que foram significativamente trabalhados em seu crescimento e desenvolvimento. Mas, se ao ver que a pipa está sem rumo ou caminhando para uma zona de perigo, puxa-se a linha de volta o suficiente para acertar a rota novamente.

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