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Bactérias do intestino e a saúde das crianças na vida adulta

A microbiota intestinal é formada principalmente durante os primeiros 1000 dias de vida e pode influenciar, de modo positivo, a saúde das crianças por toda a sua vida

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Além da sua conhecida função de absorver os nutrientes da alimentação, o intestino ainda abriga cerca de 1 trilhão de células estranhas ao nosso corpo. O conjunto dessas células, antigamente conhecida como flora intestinal, chama-se microbiota intestinal.

As células são na verdade micróbios, que vivem em nosso intestino. Além de ajudar na digestão dos alimentos, essas bactérias são responsáveis por combater substâncias tóxicas que possamos ingerir, por regular o nosso humor e até por definir a probabilidade de desenvolvermos doenças crônicas não transmissíveis (DCNTs) como a obesidade, por exemplo.

O período que vai da concepção até a primeira infância, que termina no 6º ano de idade, é uma fase de crescimento e desenvolvimento intensos, que estabelece as bases para a saúde futura. Os primeiros 1000 dias de vida (da concepção até o 2º ano de idade) são frequentemente citados como um intervalo crítico de oportunidades. É nesse momento que a microbiota intestinal se forma, sendo esse mais um motivo pelo qual o cuidado com a saúde tenha maior importância nesse momento.

O intestino soma diversas funções importantes, como a de oferecer uma barreira contra agentes infecciosos, a de regular o nosso humor, entre outros. Ou seja, a atenção com a formação da microbiota impacta na saúde do indivíduo de forma geral e não apenas em uma função específica.

Bactérias do intestino e a saúde das crianças na vida adulta - Foto: pavelkraus - pixabay.com

Todas as superfícies do corpo expostas ao ambiente externo, como a pele, as cavidades oral e nasal, como também o intestino, são colonizadas por micro-organismos. De todos os locais, o intestino é o que mais apresenta bactérias, sendo o cólon, uma das partes do intestino grosso, o mais densamente populoso. Ele apresenta aproximadamente 100 trilhões de bactérias, que pertencem a cerca de 160 espécies e podem chegar a pesar 2 quilos. Uma comparação que pode ajudar na compreensão da quantidade desses micro-organismos em nosso corpo é que, o ser humano recebe 23 mil genes dos pais, mas possui 3,3 milhões de genes que pertencem às bactérias alojadas.

“O intestino contém entre 70% e 80% das células do sistema imune do corpo, criando assim um sistema imunológico específico ao intestino. No órgão, ainda há 100 milhões de células nervosas, ou neurônios, localizados ao longo de sua extensão, os quais produzem diversos neurotransmissores, como, por exemplo, a serotonina, que regulam o humor e a saciedade. Não há dúvidas de que a alimentação impacta diretamente no processo de colonização da microbiota intestinal, que desempenha um papel fundamental na função imunológica e na saúde, de forma global, em curto e em longo prazo”, afirma o Dr. Jan Knol, professor da Universidade de Wageningen na Holanda.

Knol é um dos cientistas responsáveis pelo estudo “Os primeiros 1000 dias – microbiologia intestinal no início da vida: estabelecendo uma simbiose”, que foi publicado pela revista científica Pediatric Allergy and Immunology – PAI, em 2014.

Parto e Amamentação – Como o bebê adquire a microbiota

Recentemente foi descoberta a existência de diversas espécies de bactérias no sangue do cordão umbilical, no líquido amniótico, na placenta e no mecônio dos lactentes.

Apesar disso, a maior parte do processo de colonização da microbiota intestinal ocorre após o nascimento, por meio do contato com a mãe e com o ambiente. A amamentação desempenha um importante papel no desenvolvimento da microbiota intestinal, assim como a alimentação na infância, uma vez que, por volta dos 3 anos de idade, a diversidade e complexidade da microbiota intestinal se consolida.

“Hoje é cada vez mais evidente na literatura que, o tipo de parto afeta a composição da microbiota intestinal do lactente. Em bebês nascidos por parto normal, pode-se observar uma composição de microbiota semelhante àquela encontrada no canal vaginal e intestinal materno, ao passo que nos nascidos por cesariana, a composição microbiana tende a parecer mais com a da pele da mãe e com o ambiente hospitalar”, afirma Jan Knol.

Porém, é importante lembrar que existe uma gama de fatores que afetam o desenvolvimento da microbiota intestinal na primeira infância, sendo eles: fatores pré-natais, como a duração da gestação; fatores do nascimento, como o tipo de parto; e fatores pós-natais, como tipos de alimentação, uso de antibióticos e o ambiente familiar do lactente. “Os estímulos adequados, no momento oportuno de formação e colonização da microbiota intestinal têm se mostrado como uma ferramenta promissora para a manutenção da saúde futura”, afirma Jan Knol.

Alergias e DCNTs – Consequências da má-formação da microbiota intestinal

A associação entre a microbiota intestinal, a saúde e a doença é aparente desde os estágios mais iniciais da vida e continua, à medida que a criança cresce e se desenvolve.

“Um intestino saudável está associado à presença de um ecossistema diverso e equilibrado, estável e em bom funcionamento. Recentemente, vem se estabelecendo que qualquer alteração do complexo equilíbrio da microbiota intestinal está associada ao desenvolvimento de várias doenças, incluindo as de ordem metabólica, como a obesidade e o surgimento de doenças inflamatórias e imunológicas, como manifestações alérgicas, por exemplo”, explica o Prof. Dr. Jan Knol.

Alterações ou desequilíbrios nas comunidades de micro-organismos intestinais são frequentemente chamados de “disbioses” – um termo antigo, mas que está ganhando novos interesses com o advento das pesquisas sobre a influência da microbiota intestinal na saúde e na doença.

Na maioria dos casos, a natureza exata da associação entre disbiose e a ocorrência de quadros patológicos ainda precisam ser elucidados. Contudo, as evidências disponíveis no momento permitiram um avanço representativo sobre entendimento da saúde intestinal na primeira infância e, têm contribuído para a promoção da saúde intestinal, de forma a favorecer o bem-estar geral, tanto no momento atual quanto durante os anos seguintes, que são cruciais para o pleno desenvolvimento e alcance do potencial de cada indíviduo.

“O que devemos tirar deste estudo é a importância dos estímulos que a criança recebe durante os primeiros 1000 dias, que podem trazer mais saúde por toda a sua vida. Além disso, a pesquisa nos mostra que devemos olhar para o corpo humano como um ecossistema, e não como um conjunto de órgãos que funcionam de forma independente.

O intestino é um ótimo exemplo de como um único órgão pode acumular diversas funções. Nesse sentido, a nutrição é essencial para garantir o bom desenvolvimento dos sistemas digestório, imune e nervoso”, finaliza o Prof. Dr. Jan Knol.
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