Pesquisa

Questionário identifica precocemente risco de depressão pós-parto

Com o uso do método específico de auto-avaliação, aplicado no segundo ou terceiro dia após o parto, estudo da Unifesp encontrou prevalência de 18% de mulheres com risco de apresentar depressão pós-parto. Vítimas de violência doméstica são as mais susceptíveis a desenvolver o problema logo após o nascimento do filho.

Participaram da pesquisa 133 mães, com idade média de 28 anos, que tiveram partos com gestações de, no mínimo, vinte semanas, sem intercorrências e com alta hospitalar, no período de agosto a setembro de 2005. A prevalência de risco para depressão pós-parto foi de 18%, sendo que 58% dessa porcentagem de mulheres já haviam sofrido algum tipo de violência doméstica.

De acordo com Eliza Yoshiko Kochi Silva, ginecologista e autora da pesquisa, que foi apresentada como tese mestrado, entre as mulheres que não apresentaram risco para depressão pós-parto, o índice de abusos foi significantemente menor, com 33,9% de ocorrências.

No estudo, também foi possível associar a violência doméstica durante a gravidez com ganho de peso inadequado e início tardio de pré-natal, com procura por assistência profissional no segundo trimestre de gestação. “Essas mulheres ganharam menos que sete quilos durante essa fase ou, então, vinte quilos ou mais”, explica a pesquisadora. “Isso pode ser conseqüência de sentimentos resultantes do abuso, como vergonha, culpa, medo, isolamento e baixa auto-estima, que repercutem no estilo de vida pessoal, alterando hábitos alimentares e descuidando da própria saúde”.

Elisa afirma que o questionário utilizado na pesquisa pode ser aplicado por profissionais de saúde não-especializados em saúde mental, como ginecologistas, enfermeiros e assistentes sociais e ajudar a prever, precocemente, as mulheres com probabilidade de apresentar depressão, facilitando a intervenção terapêutica e minimizando as seqüelas.

Violência e gravidez não planejada

Uma outra parte da pesquisa, que analisou apenas a prevalência da violência doméstica contra a mulher e a gestante, entrevistou 344 mães que tiveram ou não intercorrências durante sua estadia no hospital. Destas, cerca de 75% relataram ter sofrido algum tipo de violência dentro de casa e, 68%, sequer tinham planejado a gestação. Em 24% dos casos, as mulheres também não ficaram satisfeitas com a confirmação da gravidez.

Para Eliza, esses dados preocupam e alertam sobre a necessidade de a política e a estratégia de planejamento familiar serem reavaliadas, já que todas as mulheres do estudo eram alfabetizadas e, 64% tinham renda per capita de um salário mínimo ou mais. “Ou seja, elas tinham conhecimentos e condições para realizar um planejamento familiar adequado e não o fizeram”, afirma Eliza. “Isso também significa que um quarto dos recém-nascidos podem ter risco aumentado de sofrer abusos e negligência nos cuidados infantis, inclusive a amamentação, sendo urgente medidas de proteção e monitoramento dessas crianças”.

A pesquisadora explica que todas as mulheres sexualmente vitimadas na gravidez apresentam intercorrências durante a gestação que podem ser identificadas por repetidas infecções de urina, sangramento no primeiro trimestre, bulimia e depressão. “Portanto, é preciso que os médicos responsáveis pelos pré-natais sejam alertados a aprofundar a investigação dessas intercorrências”.

Entenda a depressão pós-parto

Definida como transtorno do humor, a depressão pós-parto se inicia, normalmente, nas quatro primeiras semanas após o parto e pode ser de intensidade leve até uma desordem psicótica grave. Além da presença da diminuição ou perda do interesse nas atividades anteriormente consideradas agradáveis, é preciso a associação de pelo menos outros quatro sintomas para o diagnóstico, como alteração significativa de peso ou do apetite, insônia ou sono excessivo, fadiga, agitação ou retardo psicomotor, sentimentos de desvalia ou culpa, perda de concentração e idéias de morte ou suicídio.
Sua incidência é de um a quatro casos em cada mil nascimentos, sendo que sua recorrência chega a 30% e 50% a cada parto. As mais afetadas pelo problema são as adolescentes, com uma prevalência de 26% dos casos, contra 10% a 15% nas mulheres adultas.

Violência doméstica

Eliza dá alguns exemplos de como a violência doméstica pode repercutir na vida de uma mulher. De acordo com ela, na área social, estima-se que 20% dos absenteísmos no trabalho sejam resultado da violência dentro de casa.

Já na saúde, dados relevam números assustadores. Estudos mostram que, no Brasil, 36% das mulheres vítimas desse tipo de violência necessitam de assistência médica, sendo que 22% das vítimas de São Paulo e 20% da Zona da Mata, em Pernambuco, referiram haver passado uma noite no hospital em conseqüência de trauma físico. Cerca de 39% dos homicídios contra as mulheres, cujas autorias são conhecidas, resultam de violência doméstica. “Esses dados levaram o governo federal a sancionar uma lei que obriga hospitais e postos de saúde a notificarem autoridades frente a casos de violência contra a mulher”, afirma.

Na gravidez, a violência pode ser responsável pelo início de trabalho de parto, nascimento de crianças de baixo peso, desencadeamento de doenças infecciosas e morte materna.

Fonte: UNIFESP

Data de publicação: 04/10/2007

 

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