Exame identifica Rh do feto e evita imunização desnecessária

Exame identifica Rh do feto e evita imunização desnecessária à gestante

Imunização é realizada em grávidas com tipo Rh-negativo para prevenir a incompatibilidade sangüínea entre mãe e feto e, conseqüentemente, minimizar riscos da Doença Hemolítica Perinatal, forma de anemia que acomete o bebê durante a gestação e que pode exigir transfusão intra-uterina.

Identificar o tipo Rh do feto através do sangue materno, logo no início da gestação, além de evitar gastos para a gestante – já que a vacina não é oferecida pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e nem pelos convênios particulares na assistência pré-natal ambulatorial –, também oferece maior tranqüilidade à mãe sobre a saúde do bebê, aponta pesquisa da Unifesp.

Um estudo apresentado como tese de doutorado na Unifesp aponta benefícios de se acrescentar, na rotina de assistência à mulher grávida, um exame pelo qual é possível identificar, por meio do sangue da mãe, o gene Rh (gene RHD) no DNA (ácido desoxirribonucléico) do feto. O exame, que pode ser realizado já na oitava semana de gestação, seria indicado às mulheres com Rh-negativo que engravidaram de homens com Rh-positivo ou Rh ignorado pela parceira.

Para o obstetra Paulo Alexandre Chinen, autor da pesquisa, saber o Rh do feto precocemente pode prevenir o desenvolvimento de anticorpos desencadeado pelo contato do sangue materno com o do bebê e evitar complicações na gestação como abortamento, placenta baixa, descolamento prematuro de placenta, atonia uterina e Doença Hemolítica Perinatal (DHP).

O pesquisador explica que, na DHP, os genes Rh produzem vários antígenos, sendo o antígeno D o mais importante, por ser o que mais provoca resposta imunológica. “O contato do sangue da mãe Rh D negativo com o sangue do feto Rh D positivo leva ao desenvolvimento de anticorpos, classificados como imunoglobulina G, que atravessam a placenta e destroem os glóbulos vermelhos do sangue do bebê”, afirma. “A conseqüência disso é anemia fetal, que pode evoluir para óbito caso a doença não seja diagnosticada e tratada. Em muitos casos, é preciso que o feto receba transfusão de sangue ainda no útero na mãe”.

Com a identificação do Rh fetal nas gestantes com Rh negativo que não possuem anticorpos (não sensibilizadas) e estão gerando fetos Rh negativo, poderia ser evitada a administração da “vacina” (imunoglobulina anti-D) na 28ª semana, período no qual é preconizada a imunização, reduzindo um custo direto para a grávida de aproximadamente R$ 200.

Conhecer o Rh fetal, de acordo com o obstetra, também descaracteriza um acompanhamento de ‘alto risco’; previne a prematuridade, diminui a necessidade da realização de exames de imagem (ultra-sonografias e dopplerfluxometria) e os laboratoriais, principalmente o chamado Teste de Coombs indireto – que identifica a possibilidade de sensibilização durante a gestação. “Essa conduta diminuiria também os gastos à saúde pública e privada e proporcionaria mais conforto e segurança às futuras mães e ao profissional que assiste a saúde dos bebês”, afirma Chinen. “Nos casos de feto com Rh positivo de grávidas sensibilizadas ou não, o protocolo de profilaxia seria seguido conforme o preconizado para cada caso.”

Custos X benefícios

No estudo, o pesquisador avaliou 103 grávidas com Rh negativo, sendo que 61 não apresentavam anticorpos contra o antígeno D (não sensibilizadas) e, 42, já estavam sensibilizadas, ou seja, já haviam produzido anticorpos em gestações anteriores. Das 61 não sensibilizadas, 26,2% (16) não precisariam tomar a vacina e realizar exames constantemente, pois seus fetos também eram Rh negativo. Nesses casos, o custo envolvido em profilaxia desnecessária é cerca de 50% mais para a saúde pública ou privada.

Já nas 42 gestantes sensibilizadas – que não necessitariam da imunização, mas precisariam de acompanhamento rigoroso por serem consideradas gestações de alto risco –, 21,4% (9) delas também estavam gerando fetos Rh negativos e poderiam levar a gravidez de forma tranqüila, com um pré-natal comum, menos exames e consultas, sem risco de desenvolver a DHP nos bebês. “O benefício social, emocional e de integridade do ambiente intra-uterino, nesses casos, também deve ser levado em conta”, afirma Chinen. “Métodos invasivos de determinação do Rh fetal, seja pela coleta do sangue do cordão umbilical, da placenta ou do líquido amniótico, oferecem risco de aborto que pode variar de 0,5% a 3%”.

Outro inconveniente dessas técnicas invasivas, de acordo com Chinen, é a possibilidade de promover o contato entre os antígenos do feto e o sistema imunológico materno, desencadeando a produção de anticorpos na gestante.

Por ser produzida a partir de soro de pessoas sensibilizadas, que em muitos casos se dispuseram a desenvolver uma resposta imunológica a partir de um processo de “contaminação” pelo antígeno D, a imunoglobulina tende a ficar mais cara, uma vez que o número de pessoas que se sujeitam a esse processo é cada vez menor.

Escassez de doadores

Para o pesquisador, não é só com o aspecto financeiro que os especialistas devem se preocupar. Por ter como matéria prima o soro de indivíduos sensibilizados, a imunoglobulina pode ser um veículo de contaminação. Há casos de mulheres que foram imunizadas com a imunoglobulina anti-D (vacina) e desenvolveram hepatite C.

Apesar dos rígidos padrões de rastreamento sorológico dos doadores, não são apenas vírus, bactérias e fungos que podem ser transmitidos por hemoderivados, explica. “Há uma categoria de agentes de extrema morbidade que não são detectados nas sorologias de rotina, como os príons, proteínas “infecciosas” que alteram a síntese de outras proteínas celulares, acarretando o desenvolvimento de doenças como de Creutzfeldt-Jakob (encefalopatia espongiforme bovina), popularmente conhecida como “Doença da Vaca Louca”. Identificada em 1996 no Reino Unido, a doença pode levar a demência e óbito entre seis meses e dois anos. Como não há tratamento e o período de incubação é extremamente longo, desde 1999 as autoridades sanitárias inglesas definiram a importação da imunoglobulina. “Apesar de as chances de contaminação por essa e outras doenças serem muito baixas, não podemos falar em risco zero”, afirma o obstetra.

 

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