Bebê até 1 ano

Antibiótico: vilão ou mocinho?

O problema do uso do antibiótico ocorre quando é indicado ou utilizado incorretamente.

As opiniões das mães sobre o uso do antibiótico são muito variadas. Algumas associam a uma coisa ruim, que agride e tira a imunidade da criança, enquanto outras acham que é um santo remédio e no primeiro sinal de doença já apelam para o antibiótico. Afinal, ele é bom ou ruim? O Guia do Bebê conversou com o pediatra do Hospital Ana Costa, Dr. José Newton Bicudo, para tirar todas as dúvidas a respeito do assunto.

“O antibiótico quando corretamente indicado pelo médico para o tratamento de uma infecção bacteriana é bom. Já o antibiótico usado indiscriminadamente, sem receita médica, sem indicação adequada ou usado para quadros que não sejam uma infecção bacteriana é ruim”, explica o Dr. Bicudo.

Algumas pessoas acreditam que o uso do antibiótico pode prejudicar o desenvolvimento da criança, alterar a imunidade, prejudicar os dentes, causar anemia, entre outros receios. Porém, o pediatra garante que o único risco que se corre é o de dar antibiótico para resolver algo para o qual ele não funciona, e só o médico tem condições de avaliar isso. Como qualquer outro medicamento, tomar por conta própria oferece dois riscos: o de fazer mal e o de não resolver o problema.

Mãe dando remédio na colher para seu filho que faz careta - Levent Konuk / ShutterStock

Segundo o especialista, quando a mãe usa o antibiótico indiscriminadamente, sem a orientação do pediatra, as consequências podem ser desde o retardo da cura até o disfarce dos sintomas. “A criança pode ter efeitos inversos ao que se pretende. O uso indiscriminado ainda é responsável pela resistência bacteriana, ou seja, pela eliminação das bactérias que invadem o nosso corpo e, às vezes, são importantes para que se mantenha a imunidade da criança. Com essa medida, outros medicamentos menos invasivos não conseguem fazer efeito”.

O uso indiscriminado de antibióticos está diretamente relacionado ao aumento da resistência das bactérias aos antibióticos, ou seja, que não respondem mais a antibióticos que eram utilizados para o seu tratamento e exigem antimicrobianos de espectro mais amplo para serem combatidas. Outro problema são os efeitos colaterais, como alergias e diarreias, que podem ser graves, além do alto custo do tratamento.

O Dr. José Newton Bicudo afirma que o antibiótico não altera a imunidade da criança. “Na primeira infância (até 5 anos) é muito comum as infecções virais, que têm sintomas bastante parecidos, como febre e problemas respiratórios, e o antibiótico não funciona no caso de viroses, só quando a infecção é por bactérias. É na primeira infância que a criança desenvolve o seu sistema imunológico, que é feito pelo contato dela com os vírus e bactérias”.

Outro problema relacionado ao uso dos antibióticos é não obedecer aos intervalos entre as doses ou parar o tratamento no meio sem a orientação do pediatra quando a mãe acha que o filho já está curado. O Dr. José Bicudo ensina que entre a ingestão do antibiótico e ele atingir o ponto da infecção, o medicamento vai perdendo força, ou seja, a quantidade do antibiótico no organismo vai caindo até um nível onde ele não tem eficácia. Por isso é importante obedecer ao intervalo entre as doses para manter um nível adequado do antibiótico no organismo e com a sua melhor eficácia. Também é importante seguir o tratamento até o final para certificar-se de que todas as bactérias foram mesmo eliminadas, senão elas voltam a se multiplicar. Assim sendo, os horários e dias têm de ser respeitados rigorosamente. Só assim o tratamento dá certo.

O pediatra ressalta ainda que vacinas e hábitos saudáveis ajudam a evitar doenças, mas quem deve avaliar o tratamento é sempre o médico. Dados os riscos associados a um uso incorreto dos antibióticos, para a saúde da criança e para a saúde de todos, o médico dá algumas dicas fundamentais:

  • Não pressione o médico para lhe receitar antibióticos, nem o farmacêutico para dispensá-los sem receita;
  • Tome apenas os antibióticos prescritos para cada situação, não guarde sobras e não dê a criança antibióticos receitados para outras pessoas;
  • Cumpra a posologia, não alterando as doses nem os intervalos das tomas;
  • Faça o tratamento até ao fim, não deixe de tomar o antibiótico mesmo que se sinta melhor;
  • A escola e demais cuidadores da criança devem ser informadas sobre a infecção e o tratamento em curso.

Os antibióticos não curam todas as doenças e podem não ser os mais apropriados para as infecções típicas da infância, isto porque:

  • os antibióticos são apenas eficazes contra bactérias e a maioria das infecções que afetam as crianças é causada por vírus;
  • usar o antibiótico nesta situação não ajuda o organismo a combater o vírus nem impede o contágio;
  • os antibióticos podem causar efeitos secundários, tais como diarreia e reações dermatológicas;
  • o uso inadequado de antibióticos está na origem da chamada resistência bacteriana;
  • por vezes o melhor remédio para tratar uma infecção é confiar no sistema imunológico, dando lhe tempo para atuar e combater a doença;
  • são as infecções próprias da infância que vão ajudar a desenvolver as defesas da criança, tornando-a mais resistente.

Paula R. F. Dabus

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